SELEÇÃO HOLANDESA

Phillip Cocu comenta sobre situação do Vitesse

Phillip Cocu

Depois de treinar equipes como PSV, Fenerbahçe e Derby County, Phillip Cocu está em trabalhando como treinador do Vitesse há quatro meses, clube no qual já atuou como atleta. A tarefa parece tão simples quanto inacreditável: manter o Vitesse na Eredivisie para a próxima temporada.

Confira agora, uma entrevista exclusiva do jornal holandês VI com o treinador do Vitesse, Phillip Cocu.

Você é treinador do Vitesse há quase quatro meses. Você está gostando desse momento?

“Quatro meses já? Sinceramente, não fazia ideia. De qualquer forma, é ótimo. Quando o Vitesse entrou em contato comigo, eu já estava querendo voltar e senti que era o momento e lugar certos para recomeçar. Eu tirei um ano de estudos por algum motivo, isso foi bom nos primeiros meses, mas você pode sentir que o desejo de treinar, de comandar um treino, de ficar na beira do gramado, está voltando lentamente. É realmente muito bom ser treinador novamente”

Este era o momento certo para voltar como treinador?

“Parecia que sim, mas o que é um bom momento neste mundo do futebol? Acho isso tão difícil de indicar, não é uma questão de planejamento. É um mundo tão imprevisível. Você viu isso novamente esta semana com Alfred Schreuder no Ajax. Já faz algum tempo que vivo neste mundo do futebol. Isso é uma vantagem, já não me surpreendo tão facilmente e isso não me deixa inquieto. Não é assim que me planejo. Existem lados bons e ruins nesta profissão, como qualquer outra. O futebol é apenas um mundo muito especial em que vivemos trabalhamos”

Parar por um tempo é bom ou necessário?

“Se você tivesse me perguntado isso há cerca de seis anos, eu teria dado uma resposta muito diferente. Fiquei inquieto com a ideia de não fazer nada por um tempo. Não ser treinador, não ter nada para fazer, não ser ativo na beira do gramado, não gostei nada disso. Isso realmente não me atraiu. Agora que passei por um ano, vejo isso de maneira muito diferente. Devo admitir que foi bastante agradável. Eu realmente não fiquei entediado por um dia. Nunca pensei que diria isso. Isso é diferente de querer voltar ao trabalho, mas de repente tive tempo para outras coisas, pude organizar meu tempo de maneira diferente do que estava acostumado. Já vi alguns jogos dos meus filhos. Assim como um pai, eu gosto de assistir eles jogando e sempre que posso, estou presente”

Você voltou para um clube onde já jogou. Conhecer o Vitesse como você conhece, foi um fator importante para você tomar a decisão de vim para cá?

“Essa foi uma vantagem sim. Isso tem a ver com o sentimento. Meu tempo aqui foi um período muito importante e bonito na minha carreira como jogador. Isso fica apenas para mim. Esses sentimentos são levados em conta na hora de tomar a decisão. Eu queria muito ajudar o Vitesse, principalmente porque o clube estava passando por um momento dentro da Eredivisie”

Você passou por momento complicados fora da Holanda, com duas demissões consecutivas. Os treinadores se apoiam em situações difíceis ou não é assim que funciona?

“Às vezes, depende muito de qual é o seu relacionamento com outros treinadores. Eu tenho um bom relacionamento com Giovanni van Bronckhorst e Frank de Boer, então conversamos bastante. Mas eu pessoalmente conheço pouco Alfred Schreuder, nós nos encontramos em alguns momentos. Ele está experimentando o lado negro do futebol”

És um treinador diferente do que treinador que comandou o PSV?

“Não acho que me tornei um treinador diferente. Em alguns detalhes, acho que mudei minha postura, mas no geral, não. Eu acredito que funciona do jeito que eu faço, eu acredito na minha abordagem. Isso é um ponto em que me apoio para tomar as minhas decisões. A forma de jogar, a forma de treinar, isso funciona para mim. Depende também da composição do grupo. Aqui eu tenho jovens jogadores, alguns em seus vinte e poucos anos e agora alguns com mais de trinta anos. Isso se encaixa bem com a maneira como eu gosto de trabalhar”

Quão importante é trabalhar com seus próprios assistentes? Os treinadores geralmente gostam de trazer sua própria comissão técnica. Isso faz você se sentir mais seguro?

“Eu sempre quero ter pelo menos um assistente com quem já trabalhei antes. Eu sou um treinador que gosta de trabalhar com profissionais capacitados. Gosto de distribuir a responsabilidade com todos os membros da comissão técnica. Eu trabalhei durante muito tempo com Chris van der Weerden, ele sabe exatamente como trabalho e o que quero. Ele ainda estava com o ADO Den Haag quando comecei aqui, então percebi imediatamente que tinha muito o que fazer. Quando ele chegou, fez uma diferença enorme. O mesmo aconteceu com Marink Reedijk. Também me envolvi com Theo Janssen, sua visão de jogo me agrada bastante, seu contato com os jogadores e seu sentimento com os jovens é muito importante. É tudo uma questão de encaixar as peças”

Os treinadores geralmente querem resultados muito rápido. Isso também acontece com vocês?

“Você tem que construir do jeito que você quer. Não gosto de correr como um elefante, isso é realmente uma armadilha para todo treinador. Eu tive alguma experiência com isso. Por exemplo, talvez eu quisesse algo rápido demais quando estava na Turquia. Eu gostaria de enfatizar que não era tanto uma questão de querer jogar futebol holandês. Era muito mais sobre como transferir meu estilo de jogo, aquilo que eu acredito de futebol, para uma cultura completamente diferente. Isso é difícil, porque primeiro você tem que aprender e entender a cultura. Na Inglaterra isso foi mais fácil do que na Turquia, o equilíbrio foi melhor lá. Nós jogamos no Derby County da maneira que queríamos. É sobre misturar as coisas. Isso também se aplica aqui no Vitesse. A equipe estava acostumada a jogar de uma forma diferente de treinar e jogar. Você só pode implementar essa mudança se todos começarem a confiar nela. Isso tem que ser feito passo a passo. Quanta informação eles podem absorver, você não deve sobrecarregar, especialmente em jovens jogadores”

O ex-jogador como treinador. Como você se sente sobre isso?

“É muito complexo. Eu acredito que pode ser mais rápido para alguns do que para outros. Depende do caráter do treinador, do clube, vários fatores determinam se poderá dar certo. Alguns jogadores já sabem durante a carreira de jogador que se tornarão treinadores. Para outros, isso acontece muito naturalmente. Todo mundo sabia sobre Josep Guardiola, isso era tão óbvio. Outros treinadores passam por um processo mais lento”

“É um campo de experiência para todos. No começo também tive que aprender a colocar as pessoas certas no lugar certo. Eu realmente tive que aprender a deixar as coisas acontecerem. Isso continua difícil, especialmente para um treinador que gosta de guardar tudo para si. Na verdade, você quer fazer tudo do seu jeito, mas também descobre que é difícil. Agora trabalho confortavelmente dando responsabilidades às pessoas e busco ter uma visão mais de cima. Com muito foco em táticas. A dinâmica entre o treinador e o grupo deve existir”

Por que isso funciona bem agora?

“O equilíbrio agora é bom. A longa pausa de inverno por causa da Copa do Mundo foi nova e estranha, mas agradável no nosso caso. Nós tivemos mais tempo e aproveitávamos ao máximo. Então você tem que pensar à frente. Isso é especialmente importante para um treinador que gosta de pensar muito, como eu. Penso em tudo, gosto de trazer luz sobretudo de diversos ângulos. Não quero me culpar por não pensar em algo. Isso às vezes vai longe, a certa altura conseguimos encontrar o equilíbrio. Quando chego em casa, não vejo mais nada de trabalho. Isso foi muito diferente ao longo da minha carreira como treinador. Foi difícil para mim separar as coisas, e eu não estava percebendo que isso estava acabando comigo, mas as pessoas ao meu redor estavam percebendo. Hoje, eu tenho muito mais paz. Quando eu venho trabalhar no clube, venho com muito mais energia”

Como está o Vitesse agora?

“Nós estamos saindo de um período difícil antes da pausa de inverno. Havia muita negatividade em torno do clube e do elenco. Nós trabalhamos muito com os jogadores e a equipe, começamos de novo com diferentes métodos de treinamento. Conseguimos resultados importantes na Eredivisie. Esse foi o primeiro passo. Agora é hora da fase dois. Nós podemos e queremos vencer jogos grandes para sair da parte de baixo da tabela. Em breve haverá competições nas quais você precisará acumular pontos para subir. Nós começamos bem o ano de 2023, só posso estar satisfeito com isso. A confiança no elenco cresceu bastante. Nós estamos estáveis, não caímos. Agora temos que ultrapassar outros limites. Agora existe uma base com a qual podemos trabalhar e continuar”

Um bom jogo contra o FC Twente em casa e a vitória contra o SC Heerenveen fora de casa, provam que o Vitesse não é o time que brigará contra o rebaixamento?

“Mas ainda estamos lutando contra o rebaixamento. Nós precisamos ser realista. A vantagem para os primeiros times dentro da zona de rebaixamento ainda é muito pequena. O bom jogo contra o FC Twente deu a sensação para todos que podemos alcançar coisas melhores ainda nesta temporada. É assim que teremos que abordar os jogos. Ao obter três pontos, você pode subir. Todo mundo ganha pontos e isso acontece toda semana. Depois daquele jogo contra o FC Twente, todos os jogadores estavam sorrindo nos treinamentos. A confiança cresce”

Você está satisfeito com o atual elenco do Vitesse?

“Estou satisfeito. Claro que como treinador, sempre encontrarei espaço para melhorias. No entanto, sei muito bem a situação em que o clube se encontra neste momento. O fato de recentemente termos conseguido trazer Nicolas Isimat-Mirin e na semana passada, Davy Pröpper em uma transferência gratuita, é muito bom. Este elenco pode usar alguns jogadores experiente”

Você e o Vitesse deram a Davy Pröpper tempo para tomar uma decisão. Você desempenhou um papel importante em persuadir ele?

“Eu não vejo isso como uma vitória para mim. Estou especialmente feliz por ele. Ele é um jogador tão correto e dedicado, se você o vê treinando, pode ver que ele gosta disso. Se você decidir se aposentar, é uma grande decisão. Não acho difícil imaginar, mas eu fiz uma pergunta para ele. Você está 100% certo dessa decisão? Eu tenho total respeito por isso. Ele sentiu falta de jogar futebol, conversei com ele e pedir para que ele viesse aqui. Não queríamos estabelecer nenhuma condição, nenhuma pressão. Isso não adianta. Ele deve sentir que está livre e começou a treinar conosco. Aos poucos, o sentimento voltou. Estou muito feliz com isso, sempre trabalhei bem com ele e continua sendo um grande jogador”

Como você vê o papel de Nicolas Isimat-Mirin e Davy Pröpper no restante desta temporada?

“Eu espero algo deles em relação a condução de elenco. Eles possuem experiência e são profissionais que podem ajudar outros jovens jogadores. É claro que a posição de Davy Pröpper mudará um pouco agora. Passa do treino ao jogo, é agora titular da equipe e por isso de repente  concorrente de alguns jogadores. O mais importante é que eles deixem tudo em campo para chegar ao nível que desejamos. Esses dois têm a qualidade e experiência suficiente para nos ajudar bastante. Primeiro, temos que dar ritmo de jogo para eles. É difícil mensurar em qual estágio os dois estão, mas ambos já voltaram a jogar. Aos poucos, acredito que eles vão se condicionar fisicamente. Nós também agendamos amistosos para que eles possam jogar mais”

Você tem estado ocupado com outras coisas dentro do Vitesse ou seu foco é 100% no modelo de jogo?

“Não tenho me envolvido em outros assuntos dentro do clube. No inverno, eu tinha um pouco mais de tempo para isso, quando não íamos jogo a jogo. Agora, com todas esses jogos pela frente, é difícil ver outras coisas. É muito simples: é sobreviver para depois construir. Nós temos que garantir a nossa permanência na Eredivisie. Essa é a realidade. Isso não quer dizer que não tenhamos ambições, mas primeiro o curto prazo precisa ser resolvido, para depois discutimos o longo prazo”

É muito difícil aceitar a situação que o Vitesse se encontra nesta temporada.

“Eu concordo. O clube entrou nessa situação por meio de diversas coisas que aconteceram ao longo do final da temporada passada com o começo dessa. Toda a situação em torno de quem seria o novo dono, causou muito impacto. Muita coisa mudou par ao clube. A chegada do novo dono deveria ter dado tranquilidade, mas isso não aconteceu de imediato”

Você já conhece o novo dono do clube?

“Falei com ele algumas vezes. Ele esteve aqui várias vezes. Nós conversamos sobre o futuro, as possibilidade, o que podemos e queremos fazer. Junto com Benjamin Schmedes, diretor de futebol do clube. Os planos estão na mesa. Ele está muito envolvido, mas está esperando. Leva muito tempo para finalizar a compra. É muito difícil estimar quando saberemos de algo. Os jogadores dificilmente se importam com isso, não preciso esconder isso. Espera-se que possamos avançar rapidamente e construir algo legal. Isso seria bom para todos, principalmente para o clube. Por enquanto, é remar com o cinto que temos”

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